Sou português. Nasci em portugal no ano da revolução. Passei-a na barriga. Cresci, trabalho e vivo em portugal desde sempre. Nunca tive inclinações para sentir “orgulho” por ser português, pois, nunca compreendi muito bem esta ideia de nação, mas, o que nunca pensei, foi que viria a ter vergonha de ser português.
Cresci numa familia classe média de inspiração católica, felizmente, não praticante. Recordo-me em criança, pouco depois de aprender a ler, que uma das primeiras mensagens que li escritas numa parede foi: “O governo é ladrão”. Apesar disso, aprendi desde cedo, a importância da revolução de abril. O momento histórico em que portugal transitou da ditadura para a democracia, de como portugal se desenvolveu depois disso, e de como a liberdade é um elemento fundamental para uma sociedade saudável. Ora, 50 e poucos anos depois, temos um pobre coitado a reclamar que precisamos, não de 1, mas de 3 salazares (não de 1, mas de 3 ditaduras!). E, o pior de tudo é a sua ascensão meteórica no plano nacional e o desmoralizante apoio crescente dos portugueses. É triste de assistir, dá vergonha.
Desde que atingi a maioridade, exceptuando por 2 ou 3 vezes, sempre votei, mas nunca com convicção. Infelizmente para mim, nunca encontrei um partido em que me sentisse representado. Apesar disso, tenho a maturidade e educação suficiente, para compreender que o mundo não foi feito á minha medida (para vosso bem ;)), e assim, sempre aceitei que os governos são uma decisão popular, da sociedade da qual faço parte. Como tal, não temos todos de concordar, e isso é saudável. Porém, desde que comecei a ler jornais e debater com os demais, percebi, que a tal frase que li em criança, era mais uma constatação do que um protesto. Por outro lado, a polarização partidaria transformou a politica num degladiar de egos, num exercicio vão de vaidade, cobiça e clubismo cego, sustentado por media mais interessados em espectáculo do que em objectividade. O gajo ou é de esquerda ou é de direita, ou anda ali no meio, mais ou menos. Se está de um lado é assim, se está do outro é assado. Um selo, um rótulo e siga. A democracia é uma batalha. Ou estás connosco, ou estás contra nós. As trincheiras movediças são traçadas ao sabor das correntes, e tudo o que resta é um salgalhada mediática. Sucedem-se os escandalos de corrupção, as incompetências admnistrativas, mas acima de tudo, a única constante é a falta de responsabilidade e justiça. Os maiores criminosos, com os bolsos cheios, escapam-se graciosamente entre alineas e interpretações legais. É triste de assistir, dá vergonha.
Aos media, coitados, perdidos na batalha pela extinção (já morreram, mas ainda não sabem), onde os verdadeiros exercicios jornalisticos se diluem num oceano de revelações orquestradas, opiniões encomendadas, e omissões autorizadas, só lhes resta, pretender gritar uma autoridade que os seus clientes (os anunciantes), anulam com cada cheque ou transferência. Ao mesmo tempo, num mundo de viralidade condicionada e regido pelo domínio da atenção pré-programada, o escandaloso e insidioso tornaram-se o fruto preferido e uma fonte inesgotável de rendimento. E desta forma, partidos como chega, atingem uma popularidade desproporcional e irracional em relação á sua validade politica e social real. Por outro lado, nas plataformas sociais (corporativas) apenas 4 empresas estrangeiras, conduzem cirurgicamente, os imensos rebanhos de seguidores, ás suas bolhas de gostos e preferências, amplificando trincheiras, despromovendo o diálogo e incentivando o absurdo. Dividir para conquistar é uma táctica ancestral de controlo e manipulação capaz de surtir efeitos poderosos. Um telemóvel para cada um e tá feito. Recompensados pelo histerismo algoritmico e mediático, os movimentos populistas actuais aprenderam a instrumentalizar a mentira, o insulto e a ignorância em torno de uma narrativa de honesta indignaçao ganhadora. Dá likes, dá visualizaçoes, e, acima de tudo, influencia, gera tracção. Se tudo isto não fosse um reflexo do absurdo, o chega até poderia ter piada, mas não tem. Os media e o chega, no seu frenesim por atenção, alimentam-se mutuamente. É triste de assistir e dá vergonha.
Constatar e amplificar o óbvio, não é ter razão. Apontar o dedo, ignorar ou falar alto não é ter visão, é falta dela. Escutar, dialogar, apresentar soluções realistas adaptadas ao mundo actual, é ter visão. No mundo real, o tempo não volta para trás. “Devolver portugal aos portugueses”, não é nem um objectivo objectivo, nem é realista, nem é nada. “o portugal de sempre” é uma ideia absurda, nunca existiu, nem nunca existirá. Isso, só seria possivel num universo imutável, congelado, parado no tempo, cristalizado. Talvez exista noutra dimensão, mas não é de todo a realidade desta. O portugal em que nasci, já não existe. Transformou-se, alterou-se, aprendeu, errou, mas tal como é comum a todas as nações, mudou. Podemos deleitarmo-nos com a nossa preciosa e singular saudade, saborear o paradoxo que o primeiro português nem sequer era português, idealizar um país de herança cristã, a glória da conquista de mares nunca dantes navegados, ou mesmo, a nossa vibrante indústria canábica que sustentou objectivamente o nosso empreendorismo oceânico. Uma noite á lareira, ou num almoço de amigos, pode sem duvida, proporcionar umas boas horas de conversa. Mas, tudo isto são, memórias, são o passado, são eventos que aconteceram no tempo. Tal como nós, as nações, crescem, mudam e transformam-se, é inevitável. Tal como nós, quando os que nos estão próximos mudam, também nós mudamos, adaptamos. A bem ou a mal, já sabemos, o mundo não pára. É daquelas coisas, “não há volta a dar”.
O país mudou muito. Electricidade, alfabetizaçao, redes de comunicação, agricultura, pescas, industrias muita coisa mudou. Umas para melhor, outras para pior, mas, no geral, penso que concordamos que o país avançou em muitos aspectos, no entanto, inevitável ás esferas de poder, estão as esferas de influência e consequente corrupção. Não é de agora, não é original, nem exclusivo á nação portuguesa. Não diria que faz parte da natureza humana (todo um outro argumento), mas que faz parte das democracias modernas, isso, não tenho duvida. Porém, nuns países, mais do que noutros, as barreiras e entraves a estes potenciais tropeções, são mais eficazes. Em portugal, há anos que sabemos que nada disso existe, que a justiça, neste país, parece medir-se em euros. Os exemplos abundam.Entidades legais intermnitentes que ora são publicas, ora são privadas digerem valores consideráveis dos bolsos de todos, para atafulhar os bolsos de meia dúzia. Tudo aprovado e vinculado legalmente, pelo governo do momento. É triste de assistir, dá vergonha.
É preciso fazer alguma coisa, sim, é. O falhanço persistente dos maiores partidos em, pelo menos, tentar resolver esta situação, é sem dúvida um dos motivos da ascensão do chega. Estamos fartos de estar á mercê de governos que só governam para eles, mas acima de tudo, estamos fartos da arrogância e falta de responsabilidade. Das constantes evasões legais e fiscais, da longa e persistente degradação dos sistemas de apoio social, da impunidade institucionalizada, e deste profundo sentimento que a justiça parece ter muitos pesos e muitas medidas, e que no final, o povinho é, sempre, quem paga. De norte a sul, de este a oeste, é facil de constatar esta realidade no café, na farmácia ou á mesa do jantar. Todos sabemos.
Mas, se há coisa que os portugueses não estão fartos, é de ciganos. Só os covardes, ignorantes e racistas é que acham que os ciganos são um problema nacional, e os portugueseses não são nem covardes, nem ignorantes, nem racistas. Ou pelo menos, é o que eu quero acreditar. Sim, ainda há portugueses racistas, mas esses já não representam nem o nosso país, nem os nossos valores actuais. Esses eram os do século passado, agarrados ás memórias de uma grandiosidade questionável. Os portugueses estão fartos daqueles que abusam do sistema, dos que vivem á custa dos outros, dos que não pagam o que devem e, vivem á grande á francesa, e neste campo está tudo no mesmo tacho, ciganos e não ciganos. E, se olharmos bem de perto, o impacto dessa percentagem de ciganos, é risivel no ambito do panorama e orçamento nacional. Os portugueses não querem ódio, querem justiça. Mas, instrumentalizar o racismo ao abrigo do exercicio de liberdade de expressão, é um exercicio infantil e imaturo de um pobre coitado que, simplesmente, quer ser, o centro das atenções. E num mundo mediático, como sabemos, ser ridiculo dá pontos. Os portugueses, nem são infantis, nem imaturos (quero acreditar). Lá temos os nossos desafios, mas já não somos infantis. Já andamos por esse mundo fora a negociar com outras culturas e etnias há muitos séculos. Já tivemos tempo para perceber, que, ser diferente não é mau. Ser indiferente, por outro lado, é.
Como toda a gente sabe, o chega está simplesmente a ocupar um vazio criado pelo lamentavel estado politico e legal do país, mas o chega nem é solução, nem futuro. O chega é escape, é passado, é para quem prefere fugir, a que enfrentar a realidade, é para quem tem medo. E, como é natural a quem tem medo, berra-se, esperneia-se, faz-se tudo para chamar atenção. No entanto, em termos de soluções, o chega é de um vazio atroz, quando não é objectivamente degradante. Mesmo sendo exímio em proclamar o óbvio, é o máximo que consegue, morre nos berros de um discurso velho, gasto e bolorento. Não tem soluções realistas, humanas. Por outro lado, o chega, ao serviço de interesses estrangeiros, enfraquece e vulnariza a nação que tanto defende. Mais uma vez, olhando de perto, o chega fazendo parte de uma coligação de internacionais populistas (é absurdo, não é?), limita-se a copiar o que os outros fazem. Ataca minorias, indigna-se com a imigração (dos pobres) e usa as mesmas estratégias para dominar a atenção nas plataformas e nos media, através de mais berros e mais ridiculo. No final, ficam apenas berros lançados no vazio que nem engrandecem, nem dignificam o nosso país. Só porque é diferente, o chega não é de todo melhor. É triste de assistir, dá vergonha.
E por estas e mais algumas razões, nunca pensei ter vergonha de ser português, porque o portugal que eu conheço, não é assim. Não é um país de mesquinhos birrentos, com medo de aprender acerca do mundo. Se calhar, estou errado, será que por isso que serei menos português?
Os portugueses dão cartas, são trabalhadores, criativos e acolhedores. Cá dentro e, por esse mundo fora, há portugueses a demonstrar que mesmo num portugal, num mundo diferente, se criam portugueses excelentes e inspiradores, capazes de se adaptar ás dinamicas culturais, sociais e comerciais, desta nova ordem mundial. Não é fácil. Sendo pequeno, portugal é vasto e variado. De norte a sul, dialectos, costumes e tradições revelam um país multifacetado, pluricultural. Além do tradicional cristianismo, absorvemos e mantemos aspectos culturais de muitas outras culturas. Celtas, árabes, ingleses, franceses, indianos, japoneses são algumas das culturas com as quais desenvolvemos raízes comuns. Hoje em dia, com o advento da internet, os portugueses estão mudar muito mais rapidamente. Da geraçao actual para a dos nossos país, as alterações são profundas e notórias. Acho que é esta uma das principais causas do medo do chega, a mudança inevitável. Mas, lá está, o velho do restelo lá ficou, e o país continuou, foi curioso, quis aprender, quis perceber o que deveria ser mantido e o que deveria ser descartado. O portugal que eu vejo é curioso, temerário e digno. Berra quando é necessário, mas também se sabe calar, escutar, como demonstram algumas politicas que são estudadas mundialmente. É um país de turismo, precisamente porque sabe acolher, receber, fazer os “outros” sentirem-se em casa. Não sou patriota, mas adoro este país e acredito que podemos ser muito melhor.
Mas, por favor, já chega de chega.
feito com I.A. (Inteligência Animal)